O mês de Elul é o último mês do calendário judaico. Entre aspas, mas enfim, é um mês de reflexão e de repensar a vida, porque depois dele, vem Rosh Hashaná, o ano novo judaico, e Iom Kipur, o dia do perdão. Tem pessoas que todos os dias desse mês, se dedicam a preces, reflexões profundas sobre diversos aspectos, se organizam para as Grandes Festas em família. Confesso que não sou tão organizada como gostaria. Até tentei esse ano; dois meses atrás, já estava pensando em fazer um jantar lá em casa, alugar o Salão de Festas, etc. Mas daí não senti muito engajamento das pessoas, desanimei e não fiz mais nada.

Hoje é dia 22 de Elul, e não posso dizer que participei de muitas rezas ou que fiz grande esforço mental pra pensar nisso. Mas também hoje, no calendário gregoriano, é 4 de setembro, já é o início de um mês, e o meu favorito - é meu aniversário em duas semanas. E também não estou pensando muito sobre isso. Quero dizer, fiz uma lista de coisas que queria para esse aniversário, afinal, não é todo dia que se faz 28 anos, mas fui consumida por diversas outras coisas, e deixei de lado. Coisas importantes tá, principalmente envolvendo saúde, estudos, trabalho, pesquisa. No entanto, mesmo com justificativas válidas, porque estou realmente ocupada, o tempo está passando...

Fonte: Rahime Gül/Pexels

Ontem à noite, eu participei do Chala Bake do Hillel, uma organização juvenil judaica. A Chala é um pão trançado, então basicamente nos reunimos e colocamos a mão na massa. Foi ótimo. Fiquei pensando e repensando mil vezes se ia, porque trabalhei de manhã, de tarde fui pra mais uma aula de doutorado, nenhuma das minhas amigas iria. Fui mesmo assim, e foi tão divertido. Lembrei de quando era mais nova, e minha mãe preparava as mais diversas receitas. Pão de queijo, pães, roscas, bastava farinha de trigo, leite, fermento em pó e ovos, ela dava conta.

É uma tradição comer Chalá todo sábado, todo Shabat. E muitas pessoas, ao invés de comprar pronto, fazem a própria Chalá. E claro, cozinhar na sexta pra deixar pronto para o sábado. A minha mãe fazia tanta coisa. Bolos, tortas, doces e salgados, toda sexta a cozinha brilhava. E em algum momento, isso foi se perdendo. Entre rotina, trabalhos, estudos, a sexta virou um dia qualquer, e não mais de preparação. As crianças se tornam adultas, e quantos de nós não lembramos das tradições familiares? De jantares e almoços, com a família reunida, mas daí a gente cresce, os mais velhos por N motivos já não fazem mais como antes, e ficamos só na saudade. Mas por que não fazemos também? Lembro de ver um post em que diziam, "gente, datas comemorativas eram especiais pra gente na infância, porque um adulto fazia tudo. Crescemos. Agora é nossa vez de fazer e deixar outras pessoas felizes". 

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O cheiro que ficou minha massa era maravilhosol. Quando cheguei em casa, meu irmão comentou a mesma coisa. Um cheiro de épocas mais tranquilas pra gente. Não posso dizer que daqui pra frente vou cozinhar todas as sextas, mas eu quero por mais a mão na massa. Resgatar antigas tradições familiares, e começar novas. Pelo menos uma refeição por semana, compartilhada em uma mesa com pessoas queridas. Mais trabalhos manuais e artesanais, pra não ficar só trabalho - estudo - telas. 

E por que estou pensando em tudo isso? Porque minha manhã foi uma merda. Saí de casa antes do sol nascer, fui até o metrô, do metrô até o trem, do trem desci em certa estação, fui chamar um Uber de lá até meu trabalho, e algo que levaria 15 minutos, virou 50. Cheguei bem atrasada no trabalho. E fiquei pensando em que merda estava acontecendo. Quando percebi que tinha descido da estação e estava sem sinal, foram uns bons minutos em negação, reiniciando celular, tirando e colocando chip, buscando wifi livre. Aí comecei a mendigar conexão. "Alguém tem 3g aí pra me rotear?". O que não é coisa fácil, porque quando se mora em SP, temos o costume de não parar, na rua, ainda mais pra fazer qualquer coisa pra um estranho no celular. Não é por mal, mas vocês já viram o índice de assalto? Vocês sabiam que, do Brasil inteiro, São Paulo é a 3ª cidade com maior índice de furto de celulares?

Eu até consegui pegar sinal com algumas pessoas, mas elas estavam com pressa, então eu conseguia mandar algumas mensagens e não conseguia sair do lugar. Precisei chamar o Uber 4 vezes, porque três motoristas me fizeram esperar e quando estavam quase perto de mim, eles cancelavam. Tentei avisar meu irmão e meus coordenadores, ia mandando mensagem conforme conseguia algum sinal temporário. Teve um momento em que até cogitei mandar SMS, mas procurei a opção no meu celular e não achei. Não que fosse resolver, porque depois alguém me alertou que SMS só funciona com sinal. 

Sabe o que isso me fez pensar? No quanto a gente está dependente de um aparelho eletrônico. Eu vi que está surgindo uma tendência de comprar celulares que fazem somente ligações e trocam SMS, uma forma de detox digital. E eu queria um desse, mas mesmo com o sinal de internet, como que você sai de casa sem acesso ao WhatsApp ou aplicativos como Uber ou da conta do seu banco? Você não sabe que imprevistos podem acontecer. Só que houve uma época em que não tinha nada disso. Minha mãe fazia a gente decorar o número dela em caso de emergência, e não era difícil achar um telefone orelhão. Precisava falar com alguém e não tinha como? Você ia até um orelhão fazer a ligação, e se não tivesse crédito, podia ligar a cobrar.

Arthur Novello/Pexels

Mas não tem mais orelhões. Eu não sei o número de ninguém de cabeça além do meu. Sempre saio de casa com a confiança inabalável de que qualquer coisa eu resolvo rápido, e nem o endereço dos lugares eu sei direito. Posso lembrar da rua em que trabalho, mas não lembro do número. Vou a uma consulta médica sabendo mais ou menos onde é o lugar, e quando estou chegando mais perto abro o Google Maps e termino de checar o resto do caminho... no caminho. Esses dias, meu irmão foi a uma consulta médica e o sinal de internet dele parou. A sorte é que ele ainda tinha sinal para receber minha ligação, e fui tentando guiar ele através do meu Google Maps. Fui uma péssima guia. Mas aquilo me fez pensar que eu não estou pensando nas coisas que eu faço. Não só eu, diversas pessoas. A gente está sempre no automático, com pressa. 

Quando começou a era das redes sociais, a timelinha tinha fim. Você entrava nas redes sociais como Facebook e Instagram, ficava de 30 minutos a uma hora no máximo. Via imagens, atualizações de conhecidos, e fim. Depois ia ler, ou jogar, fazer alguma coisa. Hoje, estamos viciados. É o tempo todo conectados ali. Tem dias que você passa horas sem receber mensagem nova de amigos e conhecidos, já viu tudo o que tinha pra ver, e continua ali, é um vício. Mas daí tem momentos que você se desconecta por 30 minutos e vira um inferno não conseguir falar com quem precisa. Sério, fiquei tão frustrada hoje cedo, por chegar atrasada no trabalho, por me sentir impotente, perdida, e pensando em tudo isso. É mês de Elul, eu deveria estar pensando em algo? Eu deveria tirar alguma lição disso? Mas várias pessoas ficaram sem conexão, não foi sobre mim, ou algum sinal do destino, alguma mensagem para ser interpretada. Foi só um momento perdido no tempo. Um momento em que me fez pensar que nem meu email institucional eu consigo acessar pra trabalhar, porque pra entrar, precisa de verificação, e o código chega por sms.

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Não tenho palavras de conforto pra mim mesma ou pra alguém. Saiu um estudo na Behavioral Sciences, em que dois pesquisadores, Coyne e Wooddruff (2023) analisaram alguns jovens adultos numa desintoxicação digital, e durante 2 semanas eles só tiveram acesso a redes sociais por 30 minutos por dia. Eu limitei a 2 horas, o que já são 14 horas semanais. Nesse tempo, eu poderia estar estudando, aprendendo um novo idioma, praticando um esporte, andando num parque. Fazendo Chalá numa sexta, preparando um jantar especial em família. Escrevendo carta para algum amigo. Refletindo. Acho que que é isso. Não somos perfeitos, estamos em modos de vida absurdos. Mas estamos tentando.

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